27 de fevereiro de 2026

Polilaminina e lesão medular: o que dizem a Fisioterapia e a Terapia Ocupacional

Em andamento no Brasil, os estudos promissores de mais de duas décadas liderados pela bióloga e pesquisadora Dra. Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), têm despertado a atenção da sociedade e da comunidade científica para a possibilidade do uso da polilaminina como estratégia terapêutica no tratamento de pacientes com lesão medular.

Diante da relevância do tema, as Câmaras Técnicas de Fisioterapia Neurofuncional e de Terapia Ocupacional em Contextos Hospitalares do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) publicaram recentemente notas técnicas que esclarecem informações, destacam o papel das duas categorias profissionais no acompanhamento de pacientes com lesão medular e reafirmam o compromisso da autarquia federal com os progressos na área da saúde.

O que é a polilaminina

As Câmaras Técnicas do COFFITO explicam que a polilaminina (polylaminin; polyLM) é uma forma modificada da laminina, proteína fundamental da matriz extracelular que é importante para processos como adesão celular, crescimento axonal, migração neuronal e plasticidade neural.

Estudos pré-clínicos realizados em laboratório e em modelos animais indicam potencial de estímulo à regeneração neural após lesão da medula espinhal. Pesquisas conduzidas pela Dra. Tatiana e colaboradores observaram crescimento axonal, restauração de migração neuronal e melhora funcional em modelos experimentais.

Fase dos estudos

Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início de um estudo clínico de Fase 1 com a polilaminina em pacientes com lesão medular aguda. Nessa fase, o objetivo principal das pesquisas é avaliar segurança e tolerabilidade, e não comprovar eficácia.

Como os estudos estão sendo realizados, a polilaminina ainda não possui registro sanitário para uso terapêutico rotineiro, e sua aplicação está restrita ao contexto de pesquisa, mediante aprovação ética e regulatória. Até o momento, não há comprovação científica de cura ou reversão completa da lesão medular.

Embora existam relatos preliminares encorajadores, os dados ainda são limitados e precisam ser confirmados em estudos maiores e controlados, antes que qualquer conclusão sobre eficácia clínica possa ser estabelecida.

Fisioterapia Neurofuncional

A Fisioterapia Neurofuncional é parte central e indispensável do cuidado às pessoas com lesão medular, nas fases aguda e crônica. Sua atuação compreende a prevenção de complicações secundárias, o estímulo à plasticidade neural, o treinamento orientado a tarefas, a recuperação e otimização da funcionalidade, além da promoção da participação social.

Mesmo em protocolos experimentais com polilaminina, os participantes recebem acompanhamento em reabilitação, de modo que qualquer possível ganho funcional ocorre dentro de um cuidado integrado, no qual o fisioterapeuta exerce papel estruturante e contínuo.

A prática profissional está fundamentada em princípios científicos e respaldada por meio da Resolução COFFITO n.º 562/2022, que reforça a atuação baseada em evidências e nos mecanismos de neuroplasticidade.

Terapia Ocupacional em Contextos Hospitalares

O terapeuta ocupacional avalia, de forma integrada, as habilidades preservadas, as limitações decorrentes da lesão, o contexto em que o paciente está envolvido, os aspectos psicossociais e, além disso, os desejos e as ocupações que têm significado para o paciente.

Sua presença desde a fase aguda de lesão medular permite avaliação precoce, prevenção de complicações e início do tratamento funcional. Nas fases crônicas, a continuidade do cuidado é essencial para manter ganhos funcionais e favorecer a construção de novos projetos de vida, sempre com foco no paciente.

A atuação do profissional envolve ainda o treinamento em Atividades de Vida Diária (AVDs) e Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVDs), a indicação e o treinamento em tecnologia assistiva, a adaptação ambiental, e o apoio à reorganização da vida cotidiana, além da promoção da autonomia e da participação social. A competência profissional está respaldada pela Resolução COFFITO n.º 316/2006.

Avanços e responsabilidades

As Câmaras Técnicas destacam que a divulgação de resultados preliminares deve continuar sendo feita com responsabilidade. A ausência de evidência de eficácia em lesões crônicas, por exemplo, significa que qualquer ampliação dessa hipótese permanece como especulação.

Caso estudos futuros confirmem segurança e eficácia, a polilaminina poderá representar mais uma ferramenta terapêutica. Além disso, sua utilização deverá estar sempre vinculada a programas de reabilitação estruturados e fundamentados em evidências científicas.

A Fisioterapia e a Terapia Ocupacional permanecem sendo pilares no cuidado às pessoas com lesão medular, garantindo que avanços científicos resultem em maior funcionalidade, autonomia e participação social.

Leia também:

Nota da Câmara Técnica de Terapia Ocupacional em Contextos Hospitalares sobre a polilaminina

Nota da Câmara Técnica de Fisioterapia Neurofuncional do COFFITO sobre polilaminina

Como age o medicamento que pode reverter lesão medular

Tatiana Coelho de Sampaio: conheça a história da criadora da polilaminina

Foto: Divulgação | Luciana Sposito