Nota da Câmara Técnica de Terapia Ocupacional em Contextos Hospitalares sobre a Polilaminina
Polilaminina: Atualidades, perspectivas e implicações para Terapia Ocupacional
A polilaminina constitui uma tecnologia brasileira em investigação científica, pela dra. Tatiana Coelho-Sampaio e seu grupo de pesquisa, para o tratamento da lesão medular, derivada da laminina, proteína essencial da matriz extracelular envolvida em processos fundamentais como adesão celular, crescimento axonal, migração neuronal e plasticidade neural (MENEZES et al., 2010).
Evidências pré-clínicas demonstram que a polilaminina apresenta potencial para estimular a regeneração neural e promover recuperação funcional em modelos experimentais de lesão medular, conforme descrito por Menezes et al. (2010), que observaram restauração da migração neuronal, crescimento axonal e melhora funcional em modelos animais de lesão da medula espinhal.
No âmbito regulatório, em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) autorizou o início de estudo clínico de Fase 1 com polilaminina em pacientes com lesão medular aguda, com objetivo restrito à avaliação de segurança e tolerabilidade, conforme comunicado oficial do Ministério da Saúde.
Mas afinal, o que é a polilaminina: desvendando a proteína e o conhecimento atual
A laminina é uma proteína natural da matriz extracelular. É o principal constituinte das membranas basais, um tipo de matriz em forma de lâmina, envolvida no suporte celular e na compartimentalização tecidual (YURCHENCO; KULCZYK, 2024). Em condições fisiológicas, a laminina existe em forma polimérica, mas essa organização está ausente quando a proteína é extraída de tecidos biológicos ou quando é expressa em sistemas heterólogos (HOHENESTER, 2019). Há muitos anos, a dra. Tatiana e sua equipe desenvolveram um protocolo para restaurar a organização polimérica natural da laminina e o denominou polilaminina (poliLM) (FREIRE, COELHO-SAMPAIO, 2000; BARROSO etal., 2008). Assim, sua investigação verificou se a PoliLM exógena, ou seja, injetada pelo pesquisador, poderia induzir a regeneração axonal após lesão no Sistema Nervoso Central (SNC). A pesquisa começou in vitro, ou seja, com conjunto de células em laboratório e depois in vivo, modelos animais (ratos, cachorros), inicialmente, e agora recebeu da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) a autorização para testes em pacientes após lesão medular aguda. O tratamento humanos foi considerado seguro e potencialmente benéfico porque 75% dos pacientes tratados recuperaram algum grau de função motora, enquanto a taxa de recuperação motora espontânea em casos de lesão medular completa normalmente não ultrapassava 15% (MENEZES et al., 2024).
Em janeiro de 2026, a ANVISA autorizou o início de estudo clínico de fase 1, envolvendo cinco pacientes com lesões medulares agudas torácicas (T2–T10), com aplicação da substância em até 72 horas após o trauma. Portanto, a tecnologia encontra-se em fase inicial de investigação clínica, com autorização para verificar a segurança e tolerabilidade do procedimento, ou seja, se ele é seguro. Em momentos futuros, no desenvolvimento de fase II, aí sim, será momento de verificar a eficácia do procedimento e para, só então, na fase III, aplicar em larga escala.
Então, aguardamos ansiosos pela evolução da ciência e possibilidades futuras. É importante destacar que hoje os procedimentos são realizados apenas nas pesquisas, não na clínica. A polilaminina não é vendida, ou comercializada.
A Reabilitação após lesão medular
A lesão medular pode gerar limitações funcionais, redução na participação em atividades de vida diária, trabalho e demais ocupações significativas de uma pessoa. Essas ocupações são frequentemente impactadas pelos possíveis déficits em habilidades e capacidades motoras, de processos e até de interação. Pode haver comprometimentos autonômicos profundos, que estão associados a redução da participação social e prejuízos da qualidade de vida.
Para indivíduos com lesão medular grave e potencial de recuperação neurológica, geralmente considerado limitado, tem nas abordagens de reabilitação que se concentram na utilização de técnicas compensatórias, as suas possibilidades para otimizar a função. À medida que nossa compreensão da LM e dos mecanismos de recuperação associados (por exemplo, princípios do controle motor, neuroplasticidade dependente da atividade) continua a crescer, há uma ênfase cada vez maior na restauração da função por meio da remediação dos comprometimentos subjacentes (BURNS et al., 2017).
A reabilitação de indivíduos com lesão medular pode ser dividida em três fases: aguda, subaguda e crônica. Os períodos agudo e subagudo, quando combinados, geralmente correspondem à história natural da neurorecuperação (12 a 18 meses após a lesão), enquanto a fase crônica é o período em que a neurorecuperação se estabilizou. A reabilitação durante as fases aguda e subaguda concentra-se na prevenção de complicações secundárias, na promoção e no aprimoramento da neurorecuperação, na maximização da função e no estabelecimento de condições ideais para a manutenção da saúde e da função a longo prazo. Na fase crônica, abordagens compensatórias ou assistivas são frequentemente utilizadas (BURNS et al., 2017).
A Terapia Ocupacional após lesão medular
A reabilitação de pessoas com lesão medular constitui um dos campos mais complexos e desafiadores da prática em saúde, exigindo intervenções qualificadas, integradas e, sobretudo, centradas no sujeito. Nesse cenário, a Terapia Ocupacional consolida-se internacionalmente como uma profissão essencial, com corpo de conhecimento científico robusto e atuação diretamente relacionada aos desfechos funcionais, à independência e à participação social desses indivíduos (PILLASTRINI et al., 2008).
As evidências internacionais demonstram de forma consistente que a Terapia Ocupacional exerce papel primordial na reabilitação após lesão medular, especialmente quando inserida precocemente nos programas de reabilitação hospitalar e mantida ao longo das fases subaguda e crônica. Estudos clínicos e multicêntricos apontam que intervenções ocupacionais sistematizadas estão associadas a ganhos significativos em independência funcional, particularmente no desempenho das atividades de vida diária,
transferências, uso de cadeira de rodas, manejo do autocuidado e adaptação ao ambiente. Esses ganhos não se restringem ao domínio motor, mas refletem melhorias concretas na performance ocupacional e na capacidade de viver de forma mais autônoma e significativa (OZELIE et al., 2012).
O diferencial da Terapia Ocupacional nesse processo reside em seu núcleo identitário: a avaliação e a intervenção sobre a performance ocupacional. O terapeuta ocupacional é o profissional que analisa, de maneira integrada, as capacidades remanescentes, as limitações impostas pela lesão, o contexto ambiental, os fatores psicossociais e, principalmente, os desejos e prioridades definidos pelo próprio paciente. No cuidado centrado na pessoa, é o sujeito quem estabelece quais ocupações são significativas em sua vida — seja retomar o papel de trabalhador, cuidador, estudante, parceiro, membro ativo da família ou da comunidade — e é a partir dessas escolhas que o plano terapêutico ocupacional é construído (AOTA, 2020).
Nesse sentido, é fundamental afirmar que a Terapia Ocupacional não constitui um recurso acessório dentro da equipe de reabilitação, mas um componente estruturante do cuidado. Tal compreensão encontra respaldo normativo na RESOLUÇÃO N.º 316, de 19 de julho de 2006 (DOU nº. 158, Seção 1, pág. 79, de 03/8/2006) do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO), que destaca a competência do Terapeuta Ocupacional para avaliar as habilidades funcionais do indivíduo, e executar o treinamento das funções para o desenvolvimento das capacidades de desempenho das Atividades de Vida Diária (AVDs) e Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVDs) para as áreas comprometidas no desempenho ocupacional, motor, sensorial, percepto-cognitivo, mental, emocional, comportamental, funcional, cultural, social e econômico de pacientes.
À luz dessa normativa, a presença do terapeuta ocupacional desde as fases agudas após a lesão medular, ainda no contexto hospitalar, permite avaliações precoces, prevenção de complicações secundárias, início do treinamento funcional e suporte qualificado à reorganização da vida cotidiana frente à ruptura imposta pela lesão. À medida que o paciente avança para as fases crônicas, a continuidade do cuidado no território e na comunidade torna-se indispensável para a sustentação dos ganhos funcionais, a ampliação da participação social e o apoio à construção de novos projetos de vida, em consonância com o cuidado centrado no paciente.
Nesse sentido, é fundamental afirmar que a Terapia Ocupacional não é um recurso acessório dentro da equipe de reabilitação, mas um componente estruturante do cuidado. A presença do terapeuta ocupacional desde as fases agudas após a lesão medular, ainda no contexto hospitalar, permite avaliações precoces, prevenção de complicações secundárias, início do treinamento funcional, indicação de tecnologias assistivas e suporte à reorganização da vida cotidiana frente à ruptura imposta pela lesão (COFFITO, 2006). À medida que o paciente avança para as fases crônicas, a continuidade do cuidado na comunidade torna-se indispensável para sustentar ganhos funcionais, favorecer a participação social e apoiar a construção de novos projetos de vida.
A perspectiva futura
O conjunto das evidências científicas disponíveis demonstra que o conhecimento da Terapia Ocupacional na reabilitação da lesão medular está solidamente ancorado na ciência. Estudos controlados, análises multicêntricas e revisões de literatura corroboram que nossas intervenções impactam diretamente aquilo que mais importa ao paciente: sua capacidade de viver, escolher, participar e exercer seus papéis ocupacionais com dignidade e autonomia (JACOB et al., 2011).
Por fim, diante dos avanços contemporâneos da ciência — incluindo descobertas promissoras no campo da neurociência e da regeneração neural, como os estudos envolvendo a laminina, conduzidos pela Dra Tatiana e seu grupo — renova-se a expectativa de que os desfechos da lesão medular possam ser progressivamente transformados. Sabemos que ainda não há comprovação científica de cura ou reversão completa da lesão medular, que não existem evidências robustas de eficácia em lesões crônicas e que os resultados observados até o momento são preliminares e precisam ser confirmados em estudos maiores e controlados.
Ainda assim, esses avanços reforçam a necessidade de equipes de reabilitação cada vez mais robustas, qualificadas e presentes desde o contexto hospitalar, pois nenhuma inovação biomédica alcançará seu potencial máximo sem processos de reabilitação capazes de traduzir recuperação neurológica em funcionalidade, ocupação e participação social.
Assim, a Terapia Ocupacional reafirma-se como profissão estratégica no presente e no futuro da reabilitação da lesão medular: fundamentada na ciência, comprometida com o cuidado centrado no paciente e indispensável para que a recuperação — plena, funcional e significativa — seja, de fato, possível.
Dra. Emilyn Borba da Silva
Dra. Marcela Aline Fernandes Braga
Dra. Walkyria de Almeida Santos
Câmara Técnica de Terapia Ocupacional em Contextos Hospitalares do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO)
Referências Bibliográficas
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